Análise "Q"

Bill Gross invoca análise 'Q' e vê possível subvalorização extrema

SÃO PAULO - Qualquer análise da atual situação das bolsas aponta compra para o investidor focado no longo prazo. Os múltiplos em mínimas históricas dificilmente encontram exceções após a rotina de tombos das ações. As ferramentas de valuation são diversas, mas um instrumento destacado pela gestora de recursos Pimco chama atenção.

Bill Gross, gestor da companhia, resgata os fundamentos da dinâmica capitalista para a análise de "Q ratio" - também chamado de Q de Tobin. A taxa vem da relação entre o valor de mercado da ação em relação ao custo de reposição de ativos líquidos.

Se o Q encontrado para determinado ativo superar 1, a indicação é de que o mercado está avaliando a companhia mais do que custa para reproduzi-la. Deste ponto de vista, Q>1 sugere uma ação cara.

No caso do Q vir inferior a 1, o que indica maior peso do denominador, o indicador sugere que as ações estão subvalorizadas, pois novos negócios não podem ser criados a preço tão barato quanto as ações do setor podem ser compradas no mercado.

Grosso modo, a avaliação de Gross aponta que, se montar uma empresa nova para disputar determinado mercado é mais caro, o investidor deve optar pela compra da companhia já estabelecida - o que ajudaria a ação a reverter o Q.

Contestável?
Ainda assim, a tese deixa a janela aberta a questões como a dificuldade de se mensurar o valor total para montar esta empresa nova, ou melhor, a dificuldade de chegar no custo de reposição. Ressalvas à parte, o gráfico da gestora de fundos impressiona pelos atuais níveis atingidos pela análise do Q ratio.

Mesmo com esta lacuna, outra ferramenta de valuation reforça a visão lançada pelo Q de Gross. Uma avaliação de P/L, que mede a relação entre o preço atual das ações e o lucro por ação acumulado nos últimos quatro trimestres, traça retrato praticamente idêntico ao da avaliação de Q ratio: sobrevalorização massiva, com múltiplos entre mínimas históricas.

Algumas ponderações
Mas antes de colocar estas ferramentas debaixo do braço e partir às compras, vale mencionar algumas ressalvas. O próprio Bill Gross ressalta em sua análise a perspectiva de Robert Shiller. O professor da Universidade de Yale alertou para a necessidade de avaliar o movimento histórico destes indicadores nos últimos dez anos, para evitar que eventos cíclicos comprometam a avaliação.

Outro porém vem da racionalidade dos mercados. Como o período atual é marcado pela incerteza, o investidor costuma reagir aos solavancos do mercado de maneira mais abrupta. Coloca emoção à frente da razão em suas escolhas.

Volta a necessidade de destacar o caráter de longo prazo do investimento. Bill Gross casa bem as ferramentas de valuation com esta questão: "acredito nas ações no longo prazo - mas somente se compradas no preço certo".

Fonte: Roberto Altenhofen Pires Pereira
03/12/08 - 12h00
InfoMoney

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